As chuvas e o respeito pelas crianças

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Por Samantha Maniero.

Apesar dos avisos meteorológicas alertando para as chuvas e ventos fortes  para a sexta feira, dia 11 de setembro, a normalidade da vida foi mantida para a cidade de Piracicaba. Resultado: ruas alagadas, avenidas interditadas, árvores caídas e escolas alagadas.

As notícias de aulas suspensas pipocaram na internet, nas páginas de notícias e de “notícias”. Aí começou o julgamento público, opiniões diversas de quem, na maioria das vezes, nunca pisou ou passou mais de meia hora numa escola.

Não conhece os anos de descaso e reformas do tipo “perfumaria” que tem sido feitas. Algumas escolas têm problemas com goteiras e infiltrações que já vem desde a inauguração da obra. Outras, pelo tempo. A manutenção é necessária, indispensável. Um bem público, que atende pessoas, que abriga vidas. Que, como muitos comentários citaram, impactam vidas.

Conhecemos muito bem a realidade das famílias, que muitas não tem rede de apoio, que os pais precisam ir trabalhar para o sustento da família, assim como nós, servidores também trabalhamos. A questão é que quando se opta por suspender as aulas em uma escola, é preciso ter em mente que, com toda a certeza, não há outras opções viáveis. Não é porque simplesmente “não queremos atender as crianças”.  Isso precisa ser explicado para a população e até mesmo para quem deveria entender mais sobre o funcionamento de uma escola, sobre a responsabilidade que temos sobre aquelas vidas dentro dela. 

Vamos lá. Condições das escolas. Goteiras (não estamos falando de uma ou duas, o que já seria bem ruim, mas de várias) molham o chão, na hipótese mais simples do problema, o que pode causar acidentes sérios. Em alguns casos, as goteiras são pelas lâmpadas, causando a queima delas e com isso, iluminação deficitária. Sem contar o risco de curto circuito e incêndios.  Em vários espaços da escola, como cozinha, refeitórios, banheiros, secretarias, corredores... Talvez em todos ou na maioria destes espaços. As marcas de bolor  e infiltrações nas paredes e teto denunciam todos os dias que o problema está ali e não é novo. Na próxima vez que entrar em uma escola, repare se você as encontra.

Crianças brincando ou tendo aulas em meio a baldes cheios de água, com chão molhado ou até mesmo com panos tentando minimizar os problemas. Professores se desdobrando entre sua atividade profissional, segurança das crianças, esvaziar baldes, passar o rodo no chão (as auxiliares de limpeza não estarão dando conta num cenário destes). Isto só nas salas de aula. Não há para onde improvisar, onde realocar tantas crianças/ alunos, já que muitos espaços estão nas mesmas condições na escola. Juntar turmas, talvez. Mas isso implica risco de mais acidentes e atividades comprometidas em sua qualidade. A cada criança que pede para usar o banheiro, a dúvida (que já faz parte do dia a dia, mas neste ambiente caótico se multiplica) entre deixar a criança ir sozinha e ela correr o risco de se acidentar ou acompanhar a criança e alguma se acidentar na sala sem supervisão. Além das quedas, já viram quantos acidentes fatais ocorrem por crianças que se afogam em recipientes com água nos lares? Onde a pessoa responsável cuida de poucas crianças? É alarmante. Imagine um ambiente com 15, 20 crianças e vários baldes. Contar com a sorte não deveria ser uma opção em uma escola. Em lugar algum que cuide de vidas. 

Mas vamos continuar  a rotina. Intervalo/ Almoço: Apesar da dificuldade com o ambiente, a refeição consegue ser preparada. Crianças/ alunos comendo com seus pratos e talheres em meio a agua no chão, mais pessoas passando o rodo, um pano no chão. Mais baldes com agua pelo caminho. Nem todas as mesas podem ser usadas, algumas ficam exatamente onde cai a agua. Talvez a iluminação do local também esteja comprometida. Uma criança escorrega e cai com seu prato de comida nas mãos. O tombo, a sujeita, a vergonha, a dor.

Na Educação Infantil a rotina segue com a hora do descanso. Como colocar vinte colchões no chão para que as crianças descansem em meio a tudo já descrito acima fazendo parte do cenário?

Na parte da tarde, a rotina segue em meio a este caos. Conseguem imaginar?

Mas as noticias chegam como se “a escola” ou “os funcionários” houvessem feito a dispensa pois não querem trabalhar.  Que não se importam com a dificuldade das famílias sem o apoio da escola para deixarem seus filhos. 

Nos importamos, sim. E é por isso que as aulas são suspensas. Por segurança. Por respeito. Por que crianças merecem atenção à sua segurança, ao seu conforto, à qualidade do atendimento recebido, ao seu bem estar geral dentro da instituição. Porque não somos “babás”. Somos profissionais que precisam de condições para exercer dignamente seu trabalho, com excelência, com cuidado, com segurança, com respeito. Porque se um acidente ocorrer, ninguém aceitará  a justificativa de fatalidade, ou como um risco assumido para que as famílias pudessem trabalhar mais tranquilas, apesar do risco. Não vamos assumir isto.

Por que quando se refere à crianças, tudo é pensado, organizado com foco nos adultos, como se as crianças fossem um “pacotinho” a ser guardado para os adultos ficarem tranquilos, e não como pessoas que merecem respeito e dignidade?  A serem atendidos para que os adultos não reclamem ou passem dificuldades, sem pensar no bem estar integral da criança?

A responsabilidade pela necessidade de suspensão das atividades nas escolas é da administração. Que fique bem claro. Quem é responsável por autorizar e providenciar os reparos? As reformas? Tenho certeza que os gestores das escolas oficiam a Secretaria sobre as necessidades. O que acontecem com as solicitações? Porque não são atendidas antes que o caos se instale? São esses os questionamentos que devem ser feitos. São essas respostas que aguardamos.

Samantha Maniero

Pedagoga. Professora da Rede Municipal há 26 anos, Diretora de Educação no Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Piracicaba e Região. Cidadã e mãe.